Há uma luz que nunca se apaga


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domingo, 8 de agosto de 2010

Bloody Sunday - o Zé Manel fancês

Sou o José-Manuel e nasci em Paris há 49 anos atrás. O meu pai é galego – jornalista e escritor reconhecido na região – e a minha mãe Basca. Porém, graças ao Franco e ao Franquismo, regime de ferro que assassinou milhares de espanhóis em geral, e o meu avô paterno em particular, eu sou francês.
Pouco tempo depois de eu nascer os meus pais voltaram a mudar-se, agora de Paris para Boulogne-Billancourt, onde passei a minha infância a jogar à bola com os filhos dos operários da fábrica da Renault, que era bem perto da nossa casa. Para além do futebol, que sempre me encantou, desde pequeno que sou apaixonado pela música. Não espanta por isso que, em moleque, quando não estava a correr atrás da bola, os meus serões caseiros se passassem em frente ao rádio e ao gira-discos, muitas vezes com o meu pai e os seus amigos artistas e intelectuais, ouvindo desde Chuck Berry a músicas revolucionárias espanholas. De resto, o meu gosto musical sempre foi muito ecléctico, e assim se manteve até os dias de hoje.
Na adolescência fui apanhado pelo panorama crescente do Rock Britânico, e logo me amarrei nos The Clash, banda que muito influenciou o meu primeiro projecto musical: uma banda rockabilly formada por volta de 1984 chamada les Hot Pants, na qual tocavam entre outros o meu primo Santi, o baterista.



Com os les Hot Pants toquei numa série de bares e armazéns abandonados para multidões de jovens franceses sedentos de algo diferente, de uma alternativa à cultura musical massificada.
Na mesma onda de indie rock francês dos anos 80 iniciei uns anos mais tarde, em 1986, um novo projecto: os Los Carayos, banda na qual toquei também com o meu irmão Tonio, o trompetista.



Este segundo projecto, contudo, não durou muito, pois em 1987 foi dado o pontapé de saída do meu primeiro grande amor: la Mano Negra.
La Mano Negra é (terá sido?), antes de mais, uma lendária organização anarquista, alegadamente fundada na Andaluzia, que terá operado em Espanha na segunda metade do Século XIX. Paralelamente, e naquilo que directamente me diz respeito, la Mano Negra foi (e esta foi mesmo) uma banda, composta por dez membros, que formei com o meu primo Santi e o meu irmão Tonio, na qual misturámos ritmos e sons como o punk rock, o ska, o reggae, a salsa e o flamenco, e na qual pude tocar e cantar músicas que compus e que, por vários motivos, não tinha conseguido encaixar nos meus anteriores projectos musicais. Desde cedo que cantei em várias línguas: francês, inglês, castelhano, galego, basco, português e até, nalguns casos, árabe. Acima de tudo, la Mano Negra foi o nosso primeiro veículo para o reconhecimento internacional. Em 1987 lançamos o nosso primeiro álbum, chamado Patchanka, no qual se destacou o tema Mala Vida.



A música bombou e em breve estávamos a assinar contrato com a Virgin! Ao Patchanka seguiram-se os álbuns Puta’s Fever (talvez o mais conhecido), King of Bongo e, já depois da separação da banda (aliás, grande parte do sucesso que alcançámos chegou depois da separação), Casa Babylon.
Muita gente ligada à cena alternativa francesa achou que o facto de termos fechado com a Virgin nos tinha transformado nuns vendidos. Da minha parte, não concordo. Pagaram-nos as viagens e permitiram-nos aprofundar e expandir as nossas raízes musicais. Aliás, se dúvidas restassem, basta pôr os olhos nas tournées que fizemos para perceber que não passámos a ser uns comercialóides: em inícios da década de 90 saímos de Nantes a bordo de um cargueiro chamado Melquiades, juntamente com uma companhia de teatro e de artes circenses, rumo à América Latina. Nessa (adequadamente) chamada Cargo Tour fizemos todo o continente de barco, e tocámos de graça em anfiteatros e praças públicas das cidades portuárias por onde passámos, perante multidões de pessoas, em muitos casos totalmente desacostumadas a receber bandas estrangeiras. Tudo isto em países como o Peru, o Equador, República Dominicana, Cuba, Venezuela, México, Brasil, Uruguai, Argentina e Colômbia. Mais tarde tentámos uma tournée nos EUA, onde chegámos a fazer a primeira parte de um concerto de Iggy Pop, mas dada a fraca aceitação do público logo percebemos que não estávamos propriamente talhados para o mercado anglo-saxónico (muito embora até cantássemos algumas músicas exclusivamente em inglês). Finalmente, em 1993 percorremos toda a Colômbia a bordo de um comboio, tocando também de graça nas mais remotas populações, numa viagem que deu origem a um livro escrito pelo meu pai sob o título Mano Negra na Colômbia: um comboio de gelo e fogo.
No final da viagem pela Colômbia, e talvez como reflexo de tantos meses juntos vivendo em condições económicas deploráveis, todos os membros da banda excepto eu e o teclista decidiram voltar para Paris. Foi uma grande desilusão. Fiquei mais uns tempos na Colômbia até que também eu decidi voltar para a Europa, onde me instalei em Madrid e, com alguns ex-Mano Negra, comecei o projecto Rádio Bemba (nome do sistema de comunicações utilizado por Castro e Guevara na Sierra Maestra, aquando da revolução cubana). Contudo, a coisa foi efémera. Entrei em depressão e mandei-me de volta para a América Latina.
De volta ao lugar onde criei raízes, iniciei uma viagem de sete ou oito anos seguindo o rumo das vacas (sim, das vacas! De loucos, não?). Onde havia vacas eu ia. Onde não as havia eu não entrava. Bastava um triângulo de queijo da vaca que ri para que eu me sentisse no lugar certo. Foi uma travessia no deserto durante a qual fui guardando uma espécie de diário musical das minhas viagens. Pensava que a minha carreira artística estava acabada. Tinha-me despedido da ideia de ser músico para a vida, no entanto, não queria acabar sem tirar de dentro de mim os sons que vinha acumulando e que me zumbiam nos ouvidos. Passei uma temporada no Rio de Janeiro,


outra no México (chiapas, Oaxaca, etc...),


outra na Colômbia...
Foi uma fase na qual busquei inspiração, sobretudo, na cultura de rua e dos bares manhosos da América Central e do Sul... sempre com a minha inseparável maleta de gravação portátil, sempre viajando clandestino.
Clandestino viajei e, em 1998, com recurso apenas à minha maleta de gravação portátil, Clandestino gravei os registos das minhas viagens. Essencialmente cantado em castelhano, acabei por fazer um álbum marcadamente latino, mas distante dos ritmos tipicamente orientados para a dança, tão próprios da música latina.











Muito embora tenha demorado uns meses a descolar, e para minha grande surpresa, Clandestino, lançado em Abril de 98, era já pelo fim desse mesmo ano um dos álbuns mais vendidos em França e um dos álbuns franceses mais vendidos no estrangeiro. Com esse disco me dei a conhecer ao mundo e me reconciliei com a música.
Em 2001 lancei o meu segundo álbum a solo: Próxima Estación: Esperanza.










Foi igualmente um sucesso, tendo trepado ao topo de várias publicações musicais europeias num período de semanas. De um momento para o outro vi-me na capa do Wall Street Journal e, em Dezembro, vi-me até entalado entre o Bob Dylan e a Bjork na lista dos 10 melhores álbuns do ano para a Rolling Stone!
Porém, o sucesso não me mudou os hábitos nem os ideais, e após a tournée Rádio Bemba Sound System continuei a tocar de graça em prisões, em centros e fóruns culturais e em manifestações anti-globalização.
Desde então, e até 2005, rescindi com a Virgin, colaborei com o duo de artistas malianos Amadou & Mariam


com a Jane Birkin


com os jamaicanos Toots & The Maytals


Radiquei-me em Paris e lancei o álbum Sibérie m'était contée, distante dos humores sudakas, escrito essencialmente em francês e inspirado pelo frio siberiano do Inverno europeu (isto para quem, como eu, está habituado a temperaturas próprias de outras latitudes).
Mudei-me para Barcelona e cheguei a abrir um bar na Calle Escudellers,


Em 2005, porém, pus-me novamente a andar rumo ao Brasil para tocar no Fórum Social Mundial, que se realizou em Porto Alegre. Daí segui viagem para São Paulo e depois para o Recife, tocando pelo meio uma série de concertos com o grupo francês La Phaze. Entre 2005 e 2006 fiz ainda uma tournée com os Rádio Bemba enquanto viajámos novamente por Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Chile, Cuba e México. No total, tocámos para cerca de 700.000 pessoas. Mas o mais impressionante foi no México, onde no dia 26 de Março de 2006 pude reafirmar o meu apoio ao Sub-Comandante Marcos, Chefe do EZLN, perante as 150.000 pessoas que nos vieram assistir na praça Zocalo, na Cidade do México.
À digressão sul-americana seguiu-se uma nova tournée pela Europa, e uma participação musical no filme Princesas, do realizador espanhol Fernando Leon de Aranoa. A música em questão foi me llaman calle, sobre as nobres princesas de rua que desde tempos imemoriais trabalham para satisfazer os apetites de homens famintos, e rendeu-me um prémio Goya.


Também no cinema participei ainda no filme do Kusturica sobre o Maradona, com o tema La Vida Tombola – musica dedicada a um dos meus ídolos de todos os tempos.





De um momento para o outro parece que o mundo pop me descobriu, ao ponto do Robbie Williams ter incluído no seu álbum Rudebox, de 2006, uma versão do meu Je ne t’aime plus...
Em 2007, finalmente, lancei o meu último álbum, La Radiolina, no qual tentei regressar às raízes de La Mano Negra, cantando novamente em inglês, castelhano, francês, português, e agora também em italiano.










Trotamundos nómada, alma rebelde, amante da liberdade e da natureza, observo e escuto e assim aprendo. Eterno músico de bairro, fiel às minhas raízes rockeiras, em dívida com o reggae, pendente dos tambores africanos, conto contos agarrado à rumba com misturas electrónicas; canto a história e ponho-a a dançar.

Chao

domingo, 1 de agosto de 2010

Bloody Sunday - o Rui foi a Paredes

A Auto-Estrada estava a abarrotar de emigrantes e de camiões, mas o Rui estava decidido a chegar a horas dos concertos da noite. Não os perderia nem por nada. Meteu por isso prego a fundo, todo afiadinho no daewoo que a mãe lhe emprestou, e abriu caminho gritando insultos aos demais condutores.
Enquanto via passar a contagem decrescente das placas de sinalização ia ouvindo no ipod as músicas por que esperava, e ia reflectindo sobre miudezas como o papel do violino, do saxofone e do trompete na música dos dias que correm. Pensou que, salvo raras excepções – como os Beirut –, o acordeão é o primo do campo dos instrumentos musicais... onde toca dá merda (como as rádios locais vieram a demonstrar à exaustão, quando a bateria do ipod acabou).
Quase 400 kms e muitos veículos longos depois, lá chegou ao destino. À medida que entrou na vila foi passando por minimercados, cafés, igrejas (muitas igrejas) e lojas de fotografias de cujas montras acenavam famílias cheias de uma felicidade tipicamente campestre. Na sua cabeça ficou gravado um quadro com fundo cor-de-rosa no qual, enfiada num vestido de fada branco, se destacava uma criança três vezes repetida: duas de corpo inteiro em poses de pequena princesa da província, e a terceira, maior, esfumada entre o primeiro plano e o fundo, com a cara da menina a fazer lembrar em demasia a cabeçorra de estivador que lhe terá deixado de herança o pai.
Porém, esta e outras divagações cessaram assim que chegou ao recinto. No fundo de um amplo vale, rodeado por densos bosques de um verde gritante, coberto por um céu cor-de-laranja-rosa-roxo-azul, assentava o palco principal. O cenário era incrível, como ele nunca tinha visto igual. E de todo o lado a visão para o palco era perfeita. A beleza natural do lugar era espectacular. As condições para assistir aos concertos não podiam ser melhores. Tudo a postos, tudo na boa!.. vamos a isto granda Ruizão – pensou enquanto esfregava as mãos, caminhando para a primeira cerveja da noite.
O primeiro a entrar em palco (ou pelo menos no palco idílico da cabeça do Rui, que não apanhou o festival desde o início) foi Peter Hook, ex-baixista dos Joy Division e dos New Order, para tocar o álbum Uknown Pleasures, da primeira daquelas bandas. Rui viveu minutos de antologia quando o homem fechou o concerto com she’s lost control, transmission e (como um brinde divino) Love will tear us apart. Sem contar com a improvável hipótese de vir a assistir a festivais de música no Além, nunca Rui virá a estar tão próximo de ouvir os Joy Division. Muita bom!
Ora bem, já lá vão umas quantas cervejolas... e agora vem White Lies. Vamos lá atestar o balde e siga a marinha!
O primeiro acorde não desilude: abrem com Place to hide! De loucos. De imediato a multidão vai aos arames! Cantando a plenos pulmões, Rui só parava para beber mais uns golos da sua jola e aceitar uns bafos dos charutos que outros saltantes lhe iam rodando. E os momentos de euforia iam-se sucedendo, e ele cada vez mais bêbado, e as frases ecoando na cabeça mais e mais turva e extasiada do Rui: if you tell me to jump then I’ll die, I love the feeling when we lift off, but if judgement day started tonight at least I’d know I was right and I’d be laughing at the end of the world, just give me a second darling to clear my head, so is this the price of loooooooove???
No fim do concerto acendeu um cigarro. Deu o primeiro bafo e logo experimentou um prazer cansado e familiar, semelhante ao do cigarro que mais lhe agrada. Ca granda concerto. Foda-se, se valeu bem a pena a viagem! Obrigado. Muito obrigado! Já bebi mas é de mais. Bom... vou mas é até à barraca dos comes e bebes que isto ainda tem muito para dar.
Foi uma bifana, foi um pão com chouriço e mais uns baldes de jola para matar o tempo que sobra. Seguiu-se um café a escaldar e o Rui queimou-se na língua, que ficou a saber a metal ou a sangue e a doer para cacete. Agora recebe um SMS que o informa de que já saiu a chave do Eurobilhões e não, não ficou multimilionário. Foda-se, umas ganham-se outras perdem-se... Até lá venham mas é mais umas jecas.
Vamos lá agora encarar esses Klaxons. Rui conhecia apenas três músicas, nada mais. A primeira impressão (já meio desfocada pelo excesso de alcool e fumo): três putos imberbes, um órgão, duas guitarras e uma bateria. Começa o concerto. Rasgadinho. Ponto por ponto, música após música, Rui vai sendo agradavelmente surpreendido: epá, grandes guitarradas! E bons desempenhos vocais, meu (repara que três deles cantam)! O concerto vai a meio e está tudo aos saltos. Men, esta merda é muita boa: os gajos têm um ritmo do cacete! Enfeitiçado pelas guitarradas e pelos falsetes do trio cantante, Rui perde a noção do tempo e do espaço e já está mais para lá do que para cá. Ao seu lado um bacano de chapéu à Al Capone e gravata preta estreitinha vai bebendo um balde de jola. Olha... um balde! Deixa lá ver ao que sabe faxavor... E vai mais um trago. E outro. E mais uma jola. E mais um bafo. E o Rui debate-se agora com a mãe natureza: a Gravidade chama-o com toda a força para baixo, mas ele quer e vai manter-se em pé. Nisto, os Klaxons avisam em voz alta: It’s not over yet...
E se é verdade que os Klaxons tocaram essa e logo acabaram o concerto, não é menos certo que, de facto, a coisa não estava acabada. É que houve ainda a tenda electrónica, onde um cabrão armado em Limp Bizkit de Alijó trepou pelas armações até ao telhado e se pôs a cantar alternadamente, aos gritos e em inglês, musicas com títulos como Fuck Lisbon e I am Gay. O Rui, que não é homofóbico, mas que é amante da língua portuguesa e, como qualquer alfacinha da gema, acérrimo defensor da sua Cidade, olhou-o com uma mirada vazia de olhos de peixe morto, mexendo-se na cadência e ao sabor das marés da multidão, fazendo toda a força que a sua debilitada mente lhe permitia para que o outro cabrão caísse dali abaixo. Infelizmente não deu resultado. O gajo desceu pelo próprio pé. Mas nem tudo foi mau. Depois da sova que Rui pregou, em partes mais ou menos iguais, ao fígado e ao cerebelo, também ele conseguiu sair dali pelo seu próprio pé, comer um folhado comprado a uma gorda que parecia peruana mas que provavelmente seria de Vila Praia d’Âncora ou arredores, e foi dormir de barriga cheia.
O segundo dia começou com a sugestiva imagem de um galifão de cabelo comprido e barbicha à futebolista, com uma ponta de charuto aceso, a rebentar os preservativos cheios de ar que revoavam por cima das cabeças da multidão à laia de zepelins escorregadios. Rui olhou para o gajo e achou que ainda devia ser dos poucos com quem se poderia enturmar, já que o sítio estava cheio, a abarrotar, de crianças. Eram hordas de adolescentes púberes em tronco nu tirando fotos de grupo.
O primeiro concerto, ainda o sol não se tinha posto, foi Dandy Warhols. Motins de miúdos passavam correndo rumo ao centro do agito, talvez na esperança de sacar um arranhão ou uma mazela pouco dolorosa que, aos olhos das miúdas da idade deles, atestasse a respectiva maluquice. Casais de rabo-de-cavalo dançavam abraçados enquanto tiravam fotos com os telemóveis ao som de música de anúncio de... telemóveis. Para todos eles, ao que parece, o concerto foi a puta da loucura. Porém, o Rui achou aquilo tão emocionante como uma ultrapassagem entre veículos longos nas lentas faixas da A1.
Mas calma. Nem tudo haveria de ser sensaborão. A noite avançou e chegou Adolfo Luxúria Canibal, escuro como a morte que diz ter vivido, a abrir com Tiago o Capitão e a sua Lei de Talião. Mão Morta em grande forma! Cinco grandes músicos e um cozido do bróculo a pôr a cereja do carisma no topo de um bolo feito de guitarradas à Iron Maiden a cintilarem por entre sons profundos e sombrios. A multidão (agora composta por um público já um pouco mais velho), e o Rui em particular, vibraram com Novelos de Paixão e as Noites de Budapeste, charro aqui charro ali e mais um vodka para atestar, sempre a abrir a noite toda, sempre a ronquenrolar! E o Rui em Paredes imaginando-se na Gare Marítima de Alcântara a ver o sol nascer no mediterrâneo. Granda concerto! Boa música portuguesa, à qual muitas vezes não damos o devido valor. E no entanto cá está ela, há quase tantos anos como eu! – pensou.
Seguiram-se os The Specials. Num ambiente muito This is England (no palco apenas, pois na plateia não havia rasto de suspensórios ou pólos fred perry), os velhotes começaram por pedir desculpa por nunca terem vindo a Portugal tocar para os nossos pais, agradecendo assim a presença de tanta gente, mesmo sabendo que, provavelmente, a turba não tinha ido lá para os ver, nem sequer saberia o que é o Ska. Rui olhou à volta e só vislumbrou um tipo que, nitidamente, tinha saído de casa no intuito de ouvir The Specials. E no fim do concerto pensou: aquele cabrão alto e loiro de bigodes que aí andava todo irado com os velhos é que tinha razão. Os anos passam e as músicas ficam, intemporais, desbravando caminhos e abrindo novas oportunidades aos malucos que se seguem. É que foi um granda concerto, bem sintetizado pela frase que o encerrou: you're wondering now what to do, now you know this is the end!

Mas não, não foi o fim.
Diz o Rui: o fim, mas mesmo o fim, o fim da picada, o fim do mundo em cuecas, foi trazido pelos Prodigy. Foi todo o concerto sem um milésimo de segundo de pausa, a guitarra sempre ligada, sempre afiada, a multidão sempre aos saltos, aos empurrões, sempre a fumar dos seus, dos outros, e do pó levantado pelos saltos de dezenas de milhar de pés, mais o Firestarter e o Smack my Bitch Up, mais uma série de êxitos posteriores a que perdi o rasto...
E no final perguntou-lhe o galifão de cabelo comprido e barbicha à futebolista: então Rui, curtiste?


Peter Hook (Joy Division)










White Lies













Klaxons










http://www.youtube.com/watch?v=cDqNcCuFIzE&feature=related
(Magick)


Mão Morta
















The Specials