Toda a sonoridade do "brit indie" dos 00 não existiría sem esta banda.
Franz Ferdinand admitem publicamente que batem píveas a pensar nestes gajos.
Há uma luz que nunca se apaga
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Miscelânea
Muitas vezes acontece-me ouvir uma banda uma, duas, três vezes e não encontrar nada que me faça vibrar, e ser necessário uma quarta vez que me faz ouvi-la de uma maneira que me deixa imediatamente agarrado sem querer largar mais. Agradeço ao Bastien pela mais valia que representa para o nosso blog como um grande contador de histórias e por me ter feito encontrar a essência dos White Lies. Bastaram 3 músicas para eu arriscar dizer que poderão vir a ser grandes, ao nível de uns Interpol. Agradeço também por me ter feito descobrir um dos melhores videos que já vi: "Klaxons-Magick".
Comecei com uma homenagem a uma banda que me diz muito, e espero que, neste momento, a todos os colaboradores, seguidores e leitores deste blog. A partir de hoje a minha rubrica será sempre baseada em Música e Cinema. Vou tentar exprimir da melhor maneira o que de bom me aconteceu ao ouvir um álbum ou a ver um filme.
O primeiro álbum que destaco esta semana é "Nico-Chelsea Girl". Nico foi a musa inspiradora dos Velvet Underground, tendo depois seguido uma longa carreira a solo. Este àlbum na minha opinião é controverso. Tem músicas quase perfeitas e outras que que quase parece um final de concerto, em que se estão a desligar os instrumentos dos amplificadores em conjugação com uma voz quase desinteressante da própria Nico. Oiçam o album para terem a vossa opinião.
Deixo-vos uma das músicas que me passou um sentimento de paz e nostalgia.
Nico-Chelsea Girl (1967)
Chelsea Girls
Queria relembrar aqui um álbum por todos nós conhecido, e principalmente pela geração dos nossos pais, e que ainda hoje é um clássico.
Fica uma música que eu pessoalmente não conhecia ou já não me lembrava de a ter ouvido. Parece uma música para crianças. Acho que é daí que vem a sua magia.
The Beatles-Sgt. Pepper`s Lonely Hearts Club Band (1967)
When I´m Sixty Four
Adoro fazer descobertas de bandas novas. Esta semana tive o prazer de encontrar uma banda também da década de 60 que me deixou bem agarrado. Influência óbvia de Beatles e Bob Dylan.
The Beau Brummels-Triangle (1967)
The Painter of Women
Por fim deixo-vos um álbum que ouvi mesmo antes de escrever estas palavras. Escolhi uma música que todos voçês já ouviram de certeza absoluta. Eu já a tinha ouvido mas nunca soube quem a cantava. Linda a influência "Gipsy". Todos vão reconhece-la a partir dos 20 segundos.
Love-Forever Changes (1967)
Alone Again Or
Comecei com uma homenagem a uma banda que me diz muito, e espero que, neste momento, a todos os colaboradores, seguidores e leitores deste blog. A partir de hoje a minha rubrica será sempre baseada em Música e Cinema. Vou tentar exprimir da melhor maneira o que de bom me aconteceu ao ouvir um álbum ou a ver um filme.
O primeiro álbum que destaco esta semana é "Nico-Chelsea Girl". Nico foi a musa inspiradora dos Velvet Underground, tendo depois seguido uma longa carreira a solo. Este àlbum na minha opinião é controverso. Tem músicas quase perfeitas e outras que que quase parece um final de concerto, em que se estão a desligar os instrumentos dos amplificadores em conjugação com uma voz quase desinteressante da própria Nico. Oiçam o album para terem a vossa opinião.
Deixo-vos uma das músicas que me passou um sentimento de paz e nostalgia.
Nico-Chelsea Girl (1967)
Chelsea Girls
Queria relembrar aqui um álbum por todos nós conhecido, e principalmente pela geração dos nossos pais, e que ainda hoje é um clássico.
Fica uma música que eu pessoalmente não conhecia ou já não me lembrava de a ter ouvido. Parece uma música para crianças. Acho que é daí que vem a sua magia.
The Beatles-Sgt. Pepper`s Lonely Hearts Club Band (1967)
When I´m Sixty Four
Adoro fazer descobertas de bandas novas. Esta semana tive o prazer de encontrar uma banda também da década de 60 que me deixou bem agarrado. Influência óbvia de Beatles e Bob Dylan.
The Beau Brummels-Triangle (1967)
The Painter of Women
Por fim deixo-vos um álbum que ouvi mesmo antes de escrever estas palavras. Escolhi uma música que todos voçês já ouviram de certeza absoluta. Eu já a tinha ouvido mas nunca soube quem a cantava. Linda a influência "Gipsy". Todos vão reconhece-la a partir dos 20 segundos.
Love-Forever Changes (1967)
Alone Again Or
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Before I Jump Like a Monkey, Give me a Banana #1
Fela Kuti
Obrigado Gaspar por finalmente fazeres de mim um blogger.
Música africana é o que proponho para este debute, e se é de Musica africana que vou falar, tenho de começar pelo Maior músico africano de sempre (isto na opinião de muitos pretensos melómanos incluindo este que vos escreve agora): Fela Ransome Kuti!
Fela Kuti nasceu em 1938 na Nigéria e deixou-nos em 1997, quando ainda exibia uma vitalidade e um groove impressionantes, viveu 61 anos mas tinha música para muitos mais.
Fela foi o criador de um estilo musical que mais tarde viria a ser chamado de Afrobeat e a influenciar milhares de músicos por todo o mundo. O Afrobeat era (e é) uma fusão de Jazz com Funk, Rock Psicadélic0 (nos riffs utilizados) com música tradicional africana. Mas mesmo dentro do Afrobeat Fela tem aindo hoje um lugar especial que vai para além do papel de criador, as suas músicas eram longas, viagens musicais riquissimas que às vezes ultrapassavam os 30 minutos num só tema. Esta caracteristica foi durante muitos anos um obstáculo ao sucesso fora do continente africano, mas a sua qualidade como músico, compositor e visionário fazem dele uma enorme referência nos dias que correm, o seu legado é imenso e todos os anos os seus albuns mais antigos são alvo de reedições e homenagens.
O tema que vos sugiro nesta altura é Zombie, um dos mais importantes temas de Fela, um grito contra os soldados nigerianos considerados demasiadamente violentos e crueis, grito rapidamente transformado em hino ao groove em estado puro.
Kuti usava a música como uma arma, era o seu veículo de expressão e não se coibia de ir contra o regime Nigeriano mesmo pondo em causa a sua carreira e mesmo a sua vida, era um músico guerreiro, tinha ideias muitos proprias para o seu país e para o continente africano e usava o seu arsenal musical para para as propagar. Para nós europeus que vivemos num século 21 parco em activismo e ideias fica o incrivel groove, pronto a ser usado numa noite mais quente de férias ou num final de tarde, por exemplo num qualquer quiosque na região sul de Lisboa...
Entre os inúmeros albuns de Fela Kuti proponho que percam algum tempo com os seguintes:
Roforofo Fight (1972)
Expensive Shit (1975)
Zombie (1976)
Volto para semana com mais músicas do mundo.
Obrigado Gaspar por finalmente fazeres de mim um blogger.
Música africana é o que proponho para este debute, e se é de Musica africana que vou falar, tenho de começar pelo Maior músico africano de sempre (isto na opinião de muitos pretensos melómanos incluindo este que vos escreve agora): Fela Ransome Kuti!
Fela Kuti nasceu em 1938 na Nigéria e deixou-nos em 1997, quando ainda exibia uma vitalidade e um groove impressionantes, viveu 61 anos mas tinha música para muitos mais.
Fela foi o criador de um estilo musical que mais tarde viria a ser chamado de Afrobeat e a influenciar milhares de músicos por todo o mundo. O Afrobeat era (e é) uma fusão de Jazz com Funk, Rock Psicadélic0 (nos riffs utilizados) com música tradicional africana. Mas mesmo dentro do Afrobeat Fela tem aindo hoje um lugar especial que vai para além do papel de criador, as suas músicas eram longas, viagens musicais riquissimas que às vezes ultrapassavam os 30 minutos num só tema. Esta caracteristica foi durante muitos anos um obstáculo ao sucesso fora do continente africano, mas a sua qualidade como músico, compositor e visionário fazem dele uma enorme referência nos dias que correm, o seu legado é imenso e todos os anos os seus albuns mais antigos são alvo de reedições e homenagens.
O tema que vos sugiro nesta altura é Zombie, um dos mais importantes temas de Fela, um grito contra os soldados nigerianos considerados demasiadamente violentos e crueis, grito rapidamente transformado em hino ao groove em estado puro.
Kuti usava a música como uma arma, era o seu veículo de expressão e não se coibia de ir contra o regime Nigeriano mesmo pondo em causa a sua carreira e mesmo a sua vida, era um músico guerreiro, tinha ideias muitos proprias para o seu país e para o continente africano e usava o seu arsenal musical para para as propagar. Para nós europeus que vivemos num século 21 parco em activismo e ideias fica o incrivel groove, pronto a ser usado numa noite mais quente de férias ou num final de tarde, por exemplo num qualquer quiosque na região sul de Lisboa...
Entre os inúmeros albuns de Fela Kuti proponho que percam algum tempo com os seguintes:
Roforofo Fight (1972)
Expensive Shit (1975)
Zombie (1976)
Volto para semana com mais músicas do mundo.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Até breve...
O cronista deste espaço vai a banhos, pelo que a sua rubrica será retomada na próxima semana. Ainda assim, aqui fica uma singela homenagem aos restantes colaboradores deste projecto não editorial para quem esta faixa tanto diz:
domingo, 1 de agosto de 2010
Bloody Sunday - o Rui foi a Paredes
A Auto-Estrada estava a abarrotar de emigrantes e de camiões, mas o Rui estava decidido a chegar a horas dos concertos da noite. Não os perderia nem por nada. Meteu por isso prego a fundo, todo afiadinho no daewoo que a mãe lhe emprestou, e abriu caminho gritando insultos aos demais condutores.
Enquanto via passar a contagem decrescente das placas de sinalização ia ouvindo no ipod as músicas por que esperava, e ia reflectindo sobre miudezas como o papel do violino, do saxofone e do trompete na música dos dias que correm. Pensou que, salvo raras excepções – como os Beirut –, o acordeão é o primo do campo dos instrumentos musicais... onde toca dá merda (como as rádios locais vieram a demonstrar à exaustão, quando a bateria do ipod acabou).
Quase 400 kms e muitos veículos longos depois, lá chegou ao destino. À medida que entrou na vila foi passando por minimercados, cafés, igrejas (muitas igrejas) e lojas de fotografias de cujas montras acenavam famílias cheias de uma felicidade tipicamente campestre. Na sua cabeça ficou gravado um quadro com fundo cor-de-rosa no qual, enfiada num vestido de fada branco, se destacava uma criança três vezes repetida: duas de corpo inteiro em poses de pequena princesa da província, e a terceira, maior, esfumada entre o primeiro plano e o fundo, com a cara da menina a fazer lembrar em demasia a cabeçorra de estivador que lhe terá deixado de herança o pai.
Porém, esta e outras divagações cessaram assim que chegou ao recinto. No fundo de um amplo vale, rodeado por densos bosques de um verde gritante, coberto por um céu cor-de-laranja-rosa-roxo-azul, assentava o palco principal. O cenário era incrível, como ele nunca tinha visto igual. E de todo o lado a visão para o palco era perfeita. A beleza natural do lugar era espectacular. As condições para assistir aos concertos não podiam ser melhores. Tudo a postos, tudo na boa!.. vamos a isto granda Ruizão – pensou enquanto esfregava as mãos, caminhando para a primeira cerveja da noite.
O primeiro a entrar em palco (ou pelo menos no palco idílico da cabeça do Rui, que não apanhou o festival desde o início) foi Peter Hook, ex-baixista dos Joy Division e dos New Order, para tocar o álbum Uknown Pleasures, da primeira daquelas bandas. Rui viveu minutos de antologia quando o homem fechou o concerto com she’s lost control, transmission e (como um brinde divino) Love will tear us apart. Sem contar com a improvável hipótese de vir a assistir a festivais de música no Além, nunca Rui virá a estar tão próximo de ouvir os Joy Division. Muita bom!
Ora bem, já lá vão umas quantas cervejolas... e agora vem White Lies. Vamos lá atestar o balde e siga a marinha!
O primeiro acorde não desilude: abrem com Place to hide! De loucos. De imediato a multidão vai aos arames! Cantando a plenos pulmões, Rui só parava para beber mais uns golos da sua jola e aceitar uns bafos dos charutos que outros saltantes lhe iam rodando. E os momentos de euforia iam-se sucedendo, e ele cada vez mais bêbado, e as frases ecoando na cabeça mais e mais turva e extasiada do Rui: if you tell me to jump then I’ll die, I love the feeling when we lift off, but if judgement day started tonight at least I’d know I was right and I’d be laughing at the end of the world, just give me a second darling to clear my head, so is this the price of loooooooove???
No fim do concerto acendeu um cigarro. Deu o primeiro bafo e logo experimentou um prazer cansado e familiar, semelhante ao do cigarro que mais lhe agrada. Ca granda concerto. Foda-se, se valeu bem a pena a viagem! Obrigado. Muito obrigado! Já bebi mas é de mais. Bom... vou mas é até à barraca dos comes e bebes que isto ainda tem muito para dar.
Foi uma bifana, foi um pão com chouriço e mais uns baldes de jola para matar o tempo que sobra. Seguiu-se um café a escaldar e o Rui queimou-se na língua, que ficou a saber a metal ou a sangue e a doer para cacete. Agora recebe um SMS que o informa de que já saiu a chave do Eurobilhões e não, não ficou multimilionário. Foda-se, umas ganham-se outras perdem-se... Até lá venham mas é mais umas jecas.
Vamos lá agora encarar esses Klaxons. Rui conhecia apenas três músicas, nada mais. A primeira impressão (já meio desfocada pelo excesso de alcool e fumo): três putos imberbes, um órgão, duas guitarras e uma bateria. Começa o concerto. Rasgadinho. Ponto por ponto, música após música, Rui vai sendo agradavelmente surpreendido: epá, grandes guitarradas! E bons desempenhos vocais, meu (repara que três deles cantam)! O concerto vai a meio e está tudo aos saltos. Men, esta merda é muita boa: os gajos têm um ritmo do cacete! Enfeitiçado pelas guitarradas e pelos falsetes do trio cantante, Rui perde a noção do tempo e do espaço e já está mais para lá do que para cá. Ao seu lado um bacano de chapéu à Al Capone e gravata preta estreitinha vai bebendo um balde de jola. Olha... um balde! Deixa lá ver ao que sabe faxavor... E vai mais um trago. E outro. E mais uma jola. E mais um bafo. E o Rui debate-se agora com a mãe natureza: a Gravidade chama-o com toda a força para baixo, mas ele quer e vai manter-se em pé. Nisto, os Klaxons avisam em voz alta: It’s not over yet...
E se é verdade que os Klaxons tocaram essa e logo acabaram o concerto, não é menos certo que, de facto, a coisa não estava acabada. É que houve ainda a tenda electrónica, onde um cabrão armado em Limp Bizkit de Alijó trepou pelas armações até ao telhado e se pôs a cantar alternadamente, aos gritos e em inglês, musicas com títulos como Fuck Lisbon e I am Gay. O Rui, que não é homofóbico, mas que é amante da língua portuguesa e, como qualquer alfacinha da gema, acérrimo defensor da sua Cidade, olhou-o com uma mirada vazia de olhos de peixe morto, mexendo-se na cadência e ao sabor das marés da multidão, fazendo toda a força que a sua debilitada mente lhe permitia para que o outro cabrão caísse dali abaixo. Infelizmente não deu resultado. O gajo desceu pelo próprio pé. Mas nem tudo foi mau. Depois da sova que Rui pregou, em partes mais ou menos iguais, ao fígado e ao cerebelo, também ele conseguiu sair dali pelo seu próprio pé, comer um folhado comprado a uma gorda que parecia peruana mas que provavelmente seria de Vila Praia d’Âncora ou arredores, e foi dormir de barriga cheia.
O segundo dia começou com a sugestiva imagem de um galifão de cabelo comprido e barbicha à futebolista, com uma ponta de charuto aceso, a rebentar os preservativos cheios de ar que revoavam por cima das cabeças da multidão à laia de zepelins escorregadios. Rui olhou para o gajo e achou que ainda devia ser dos poucos com quem se poderia enturmar, já que o sítio estava cheio, a abarrotar, de crianças. Eram hordas de adolescentes púberes em tronco nu tirando fotos de grupo.
O primeiro concerto, ainda o sol não se tinha posto, foi Dandy Warhols. Motins de miúdos passavam correndo rumo ao centro do agito, talvez na esperança de sacar um arranhão ou uma mazela pouco dolorosa que, aos olhos das miúdas da idade deles, atestasse a respectiva maluquice. Casais de rabo-de-cavalo dançavam abraçados enquanto tiravam fotos com os telemóveis ao som de música de anúncio de... telemóveis. Para todos eles, ao que parece, o concerto foi a puta da loucura. Porém, o Rui achou aquilo tão emocionante como uma ultrapassagem entre veículos longos nas lentas faixas da A1.
Mas calma. Nem tudo haveria de ser sensaborão. A noite avançou e chegou Adolfo Luxúria Canibal, escuro como a morte que diz ter vivido, a abrir com Tiago o Capitão e a sua Lei de Talião. Mão Morta em grande forma! Cinco grandes músicos e um cozido do bróculo a pôr a cereja do carisma no topo de um bolo feito de guitarradas à Iron Maiden a cintilarem por entre sons profundos e sombrios. A multidão (agora composta por um público já um pouco mais velho), e o Rui em particular, vibraram com Novelos de Paixão e as Noites de Budapeste, charro aqui charro ali e mais um vodka para atestar, sempre a abrir a noite toda, sempre a ronquenrolar! E o Rui em Paredes imaginando-se na Gare Marítima de Alcântara a ver o sol nascer no mediterrâneo. Granda concerto! Boa música portuguesa, à qual muitas vezes não damos o devido valor. E no entanto cá está ela, há quase tantos anos como eu! – pensou.
Seguiram-se os The Specials. Num ambiente muito This is England (no palco apenas, pois na plateia não havia rasto de suspensórios ou pólos fred perry), os velhotes começaram por pedir desculpa por nunca terem vindo a Portugal tocar para os nossos pais, agradecendo assim a presença de tanta gente, mesmo sabendo que, provavelmente, a turba não tinha ido lá para os ver, nem sequer saberia o que é o Ska. Rui olhou à volta e só vislumbrou um tipo que, nitidamente, tinha saído de casa no intuito de ouvir The Specials. E no fim do concerto pensou: aquele cabrão alto e loiro de bigodes que aí andava todo irado com os velhos é que tinha razão. Os anos passam e as músicas ficam, intemporais, desbravando caminhos e abrindo novas oportunidades aos malucos que se seguem. É que foi um granda concerto, bem sintetizado pela frase que o encerrou: you're wondering now what to do, now you know this is the end!
Mas não, não foi o fim.
Diz o Rui: o fim, mas mesmo o fim, o fim da picada, o fim do mundo em cuecas, foi trazido pelos Prodigy. Foi todo o concerto sem um milésimo de segundo de pausa, a guitarra sempre ligada, sempre afiada, a multidão sempre aos saltos, aos empurrões, sempre a fumar dos seus, dos outros, e do pó levantado pelos saltos de dezenas de milhar de pés, mais o Firestarter e o Smack my Bitch Up, mais uma série de êxitos posteriores a que perdi o rasto...
E no final perguntou-lhe o galifão de cabelo comprido e barbicha à futebolista: então Rui, curtiste?
Peter Hook (Joy Division)
White Lies
Klaxons
http://www.youtube.com/watch?v=cDqNcCuFIzE&feature=related
(Magick)
Mão Morta
The Specials
Enquanto via passar a contagem decrescente das placas de sinalização ia ouvindo no ipod as músicas por que esperava, e ia reflectindo sobre miudezas como o papel do violino, do saxofone e do trompete na música dos dias que correm. Pensou que, salvo raras excepções – como os Beirut –, o acordeão é o primo do campo dos instrumentos musicais... onde toca dá merda (como as rádios locais vieram a demonstrar à exaustão, quando a bateria do ipod acabou).
Quase 400 kms e muitos veículos longos depois, lá chegou ao destino. À medida que entrou na vila foi passando por minimercados, cafés, igrejas (muitas igrejas) e lojas de fotografias de cujas montras acenavam famílias cheias de uma felicidade tipicamente campestre. Na sua cabeça ficou gravado um quadro com fundo cor-de-rosa no qual, enfiada num vestido de fada branco, se destacava uma criança três vezes repetida: duas de corpo inteiro em poses de pequena princesa da província, e a terceira, maior, esfumada entre o primeiro plano e o fundo, com a cara da menina a fazer lembrar em demasia a cabeçorra de estivador que lhe terá deixado de herança o pai.
Porém, esta e outras divagações cessaram assim que chegou ao recinto. No fundo de um amplo vale, rodeado por densos bosques de um verde gritante, coberto por um céu cor-de-laranja-rosa-roxo-azul, assentava o palco principal. O cenário era incrível, como ele nunca tinha visto igual. E de todo o lado a visão para o palco era perfeita. A beleza natural do lugar era espectacular. As condições para assistir aos concertos não podiam ser melhores. Tudo a postos, tudo na boa!.. vamos a isto granda Ruizão – pensou enquanto esfregava as mãos, caminhando para a primeira cerveja da noite.
O primeiro a entrar em palco (ou pelo menos no palco idílico da cabeça do Rui, que não apanhou o festival desde o início) foi Peter Hook, ex-baixista dos Joy Division e dos New Order, para tocar o álbum Uknown Pleasures, da primeira daquelas bandas. Rui viveu minutos de antologia quando o homem fechou o concerto com she’s lost control, transmission e (como um brinde divino) Love will tear us apart. Sem contar com a improvável hipótese de vir a assistir a festivais de música no Além, nunca Rui virá a estar tão próximo de ouvir os Joy Division. Muita bom!
Ora bem, já lá vão umas quantas cervejolas... e agora vem White Lies. Vamos lá atestar o balde e siga a marinha!
O primeiro acorde não desilude: abrem com Place to hide! De loucos. De imediato a multidão vai aos arames! Cantando a plenos pulmões, Rui só parava para beber mais uns golos da sua jola e aceitar uns bafos dos charutos que outros saltantes lhe iam rodando. E os momentos de euforia iam-se sucedendo, e ele cada vez mais bêbado, e as frases ecoando na cabeça mais e mais turva e extasiada do Rui: if you tell me to jump then I’ll die, I love the feeling when we lift off, but if judgement day started tonight at least I’d know I was right and I’d be laughing at the end of the world, just give me a second darling to clear my head, so is this the price of loooooooove???
No fim do concerto acendeu um cigarro. Deu o primeiro bafo e logo experimentou um prazer cansado e familiar, semelhante ao do cigarro que mais lhe agrada. Ca granda concerto. Foda-se, se valeu bem a pena a viagem! Obrigado. Muito obrigado! Já bebi mas é de mais. Bom... vou mas é até à barraca dos comes e bebes que isto ainda tem muito para dar.
Foi uma bifana, foi um pão com chouriço e mais uns baldes de jola para matar o tempo que sobra. Seguiu-se um café a escaldar e o Rui queimou-se na língua, que ficou a saber a metal ou a sangue e a doer para cacete. Agora recebe um SMS que o informa de que já saiu a chave do Eurobilhões e não, não ficou multimilionário. Foda-se, umas ganham-se outras perdem-se... Até lá venham mas é mais umas jecas.
Vamos lá agora encarar esses Klaxons. Rui conhecia apenas três músicas, nada mais. A primeira impressão (já meio desfocada pelo excesso de alcool e fumo): três putos imberbes, um órgão, duas guitarras e uma bateria. Começa o concerto. Rasgadinho. Ponto por ponto, música após música, Rui vai sendo agradavelmente surpreendido: epá, grandes guitarradas! E bons desempenhos vocais, meu (repara que três deles cantam)! O concerto vai a meio e está tudo aos saltos. Men, esta merda é muita boa: os gajos têm um ritmo do cacete! Enfeitiçado pelas guitarradas e pelos falsetes do trio cantante, Rui perde a noção do tempo e do espaço e já está mais para lá do que para cá. Ao seu lado um bacano de chapéu à Al Capone e gravata preta estreitinha vai bebendo um balde de jola. Olha... um balde! Deixa lá ver ao que sabe faxavor... E vai mais um trago. E outro. E mais uma jola. E mais um bafo. E o Rui debate-se agora com a mãe natureza: a Gravidade chama-o com toda a força para baixo, mas ele quer e vai manter-se em pé. Nisto, os Klaxons avisam em voz alta: It’s not over yet...
E se é verdade que os Klaxons tocaram essa e logo acabaram o concerto, não é menos certo que, de facto, a coisa não estava acabada. É que houve ainda a tenda electrónica, onde um cabrão armado em Limp Bizkit de Alijó trepou pelas armações até ao telhado e se pôs a cantar alternadamente, aos gritos e em inglês, musicas com títulos como Fuck Lisbon e I am Gay. O Rui, que não é homofóbico, mas que é amante da língua portuguesa e, como qualquer alfacinha da gema, acérrimo defensor da sua Cidade, olhou-o com uma mirada vazia de olhos de peixe morto, mexendo-se na cadência e ao sabor das marés da multidão, fazendo toda a força que a sua debilitada mente lhe permitia para que o outro cabrão caísse dali abaixo. Infelizmente não deu resultado. O gajo desceu pelo próprio pé. Mas nem tudo foi mau. Depois da sova que Rui pregou, em partes mais ou menos iguais, ao fígado e ao cerebelo, também ele conseguiu sair dali pelo seu próprio pé, comer um folhado comprado a uma gorda que parecia peruana mas que provavelmente seria de Vila Praia d’Âncora ou arredores, e foi dormir de barriga cheia.
O segundo dia começou com a sugestiva imagem de um galifão de cabelo comprido e barbicha à futebolista, com uma ponta de charuto aceso, a rebentar os preservativos cheios de ar que revoavam por cima das cabeças da multidão à laia de zepelins escorregadios. Rui olhou para o gajo e achou que ainda devia ser dos poucos com quem se poderia enturmar, já que o sítio estava cheio, a abarrotar, de crianças. Eram hordas de adolescentes púberes em tronco nu tirando fotos de grupo.
O primeiro concerto, ainda o sol não se tinha posto, foi Dandy Warhols. Motins de miúdos passavam correndo rumo ao centro do agito, talvez na esperança de sacar um arranhão ou uma mazela pouco dolorosa que, aos olhos das miúdas da idade deles, atestasse a respectiva maluquice. Casais de rabo-de-cavalo dançavam abraçados enquanto tiravam fotos com os telemóveis ao som de música de anúncio de... telemóveis. Para todos eles, ao que parece, o concerto foi a puta da loucura. Porém, o Rui achou aquilo tão emocionante como uma ultrapassagem entre veículos longos nas lentas faixas da A1.
Mas calma. Nem tudo haveria de ser sensaborão. A noite avançou e chegou Adolfo Luxúria Canibal, escuro como a morte que diz ter vivido, a abrir com Tiago o Capitão e a sua Lei de Talião. Mão Morta em grande forma! Cinco grandes músicos e um cozido do bróculo a pôr a cereja do carisma no topo de um bolo feito de guitarradas à Iron Maiden a cintilarem por entre sons profundos e sombrios. A multidão (agora composta por um público já um pouco mais velho), e o Rui em particular, vibraram com Novelos de Paixão e as Noites de Budapeste, charro aqui charro ali e mais um vodka para atestar, sempre a abrir a noite toda, sempre a ronquenrolar! E o Rui em Paredes imaginando-se na Gare Marítima de Alcântara a ver o sol nascer no mediterrâneo. Granda concerto! Boa música portuguesa, à qual muitas vezes não damos o devido valor. E no entanto cá está ela, há quase tantos anos como eu! – pensou.
Seguiram-se os The Specials. Num ambiente muito This is England (no palco apenas, pois na plateia não havia rasto de suspensórios ou pólos fred perry), os velhotes começaram por pedir desculpa por nunca terem vindo a Portugal tocar para os nossos pais, agradecendo assim a presença de tanta gente, mesmo sabendo que, provavelmente, a turba não tinha ido lá para os ver, nem sequer saberia o que é o Ska. Rui olhou à volta e só vislumbrou um tipo que, nitidamente, tinha saído de casa no intuito de ouvir The Specials. E no fim do concerto pensou: aquele cabrão alto e loiro de bigodes que aí andava todo irado com os velhos é que tinha razão. Os anos passam e as músicas ficam, intemporais, desbravando caminhos e abrindo novas oportunidades aos malucos que se seguem. É que foi um granda concerto, bem sintetizado pela frase que o encerrou: you're wondering now what to do, now you know this is the end!
Mas não, não foi o fim.
Diz o Rui: o fim, mas mesmo o fim, o fim da picada, o fim do mundo em cuecas, foi trazido pelos Prodigy. Foi todo o concerto sem um milésimo de segundo de pausa, a guitarra sempre ligada, sempre afiada, a multidão sempre aos saltos, aos empurrões, sempre a fumar dos seus, dos outros, e do pó levantado pelos saltos de dezenas de milhar de pés, mais o Firestarter e o Smack my Bitch Up, mais uma série de êxitos posteriores a que perdi o rasto...
E no final perguntou-lhe o galifão de cabelo comprido e barbicha à futebolista: então Rui, curtiste?
Peter Hook (Joy Division)
White Lies
Klaxons
http://www.youtube.com/watch?v=cDqNcCuFIzE&feature=related
(Magick)
Mão Morta
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